Uma investigação revelou detalhes de um ensaio clínico com desfecho fatal que permaneceu oculto por mais de um ano

Uma investigação da Science e da Retraction Watch revelou a morte de uma menina chinesa após receber uma terapia experimental de edição gênica. O caso não havia sido divulgado publicamente.
A menina de 6 anos, chamada de Mei na investigação a pedido dos pais, tinha síndrome de Snijders Blok-Campeau, causada pela presença de uma variante patogênica no gene CHD3. É uma condição rara, associada a atraso no desenvolvimento e deficiência intelectual leve a moderada.
Ela era a única participante de um ensaio clínico que testava uma terapia de edição de bases (base editing), que utiliza um sistema CRISPR modificado. O objetivo era corrigir uma única letra do DNA para restaurar uma proteína importante. A menina seria a primeira pessoa no mundo a receber uma terapia de edição genética direcionada ao cérebro. Esse tipo de estudo individualizado é chamado ensaio clínico N-de-1.
Sete dias depois da infusão da terapia no líquido espinhal, Mei faleceu após uma reação imunológica grave relacionada à microangiopatia trombótica, uma complicação em que pequenos coágulos podem bloquear a circulação e causar lesões nos órgãos. O comitê do hospital, onde o ensaio foi realizado, considerou a reação definitivamente relacionada ao tratamento.
Como foi a pesquisa
Antes de ser aplicada em Mei, a terapia foi testada em camundongos e depois em primatas, a fim de compreender seu potencial de eficácia e segurança.
A tecnologia usada se apoiava em plataformas já conhecidas. A estratégia central era a técnica de base editing, que ficou conhecida no caso do bebê KJ.
No caso de Mei, a equipe usou vetores AAV9 (vírus adeno-associado do sorotipo 9) para levar o sistema de edição gênica aos neurônios. Como o editor de base era grande demais para caber em um único vetor, o sistema foi dividido em dois AAV9, que precisariam alcançar as mesmas células para funcionar. Isso é semelhante à lógica de terapias duplo AAV, como o Otarmeni.
O ensaio clínico foi aprovado pelo comitê de ética do Hospital Xinhua, afiliado à Shanghai Jiao Tong University School of Medicine, reconhecido por seu departamento de pediatria. O estudo também foi registrado no ClinicalTrials.gov sob o número NCT06860672.
Os pais e a criança assinaram o termo de consentimento. Havia uma versão mais detalhada para os pais e uma versão infantil. A versão adulta mencionava riscos como microangiopatia trombótica, e a criança também recebeu uma explicação adaptada à idade.
Antes de receber a terapia experimental, a menina recebeu prednisona, um corticoide usado para reduzir a resposta imunológica à infusão viral.
À primeira vista, a pesquisa parecia ter seguido etapas fundamentais: aprovação do comitê de ética, experimentos pré-clínicos com resultados promissores, termo de consentimento, reconhecimento do risco de reação imunológica e uso de uma estratégia de prevenção. Além disso, os pesquisadores envolvidos tinham experiência avançada em terapia gênica e distúrbios do neurodesenvolvimento de base genética e já haviam desenvolvido uma terapia gênica patenteada para a síndrome de Rett.
A morte de Mei teria sido apenas uma fatalidade inevitável e possível em qualquer ensaio clínico? A investigação da Science e da Retraction Watch indica que não. Houve problemas que deixaram o estudo vulnerável desde o início.
Preocupações
Aprovação ética com base em evidências pré-clínicas incompletas
O comitê de ética do Hospital Xinhua aprovou o ensaio clínico em 2 de janeiro de 2025. Mei recebeu a terapia em 24 de março de 2025 e faleceu em 31 de março de 2025.
Porém, o relatório final do estudo de toxicologia em primatas é de 17 de fevereiro de 2025. Ou seja, o comitê de ética aprovou o ensaio antes de revisar o relatório, o qual mostrava dano hepático moderado a grave em todos os quatro macacos testados, além de dano renal em um deles.
Fragilidade regulatória
O hospital permitiu que o tratamento experimental avançasse sob uma norma regulatória que não exige aprovação dos reguladores nacionais. A China permite que ensaios não comerciais, iniciados por pesquisadores, avancem sem a revisão rigorosa exigida pelos reguladores nacionais de medicamentos.
Termo de consentimento incompleto
Embora o termo de consentimento mencionasse o risco de complicações, como a microangiopatia trombótica, não indicava explicitamente que o tratamento poderia resultar em morte. Os pais afirmam que isso não foi discutido nas conversas com a equipe médica e de pesquisa, que sempre os tranquilizou quanto aos riscos.
Financiamento por vias informais
Os pais financiaram parte relevante do desenvolvimento da terapia com cerca de US$ 860 mil, reunidos com economias próprias e ajuda de parentes. Em si, não é incomum que famílias financiem tratamentos personalizados. Mas, neste caso, o financiamento circulou por arranjos informais.
Houve repasses para uma fundação afiliada a outra universidade, para uma afiliada chinesa de uma empresa dos EUA, para a PriMed, que realizou o estudo em primatas, e até para a conta pessoal de um dos pesquisadores.
O pesquisador principal nunca pediu nada para si mesmo. Porém, o pai da menina o visitava em seu escritório, em um restaurante próximo, ou em sua casa. O pai sempre pagava a conta e dava ao pesquisador presentes como iPhones, iPad e uma caixa de bebida destilada chinesa. Isso reforça a percepção de relação financeira e pessoal inadequada para uma pesquisa. Pais desesperados em busca de tratamento podem cruzar uma linha ao oferecer presentes ou dinheiro excessivos.
Revisão por pares dos resultados pré-clínicos foi posterior ao ensaio clínico
O artigo com os resultados pré-clínicos foi submetido à Nature em dezembro de 2024, passou pela revisão ao longo de 2025 e foi publicado em 18 de fevereiro de 2026.
Quando Mei recebeu a terapia, em março de 2025, o artigo ainda estava em revisão.
Um dos revisores expressou preocupações sobre como o estudo de prova de conceito em primatas foi conduzido. O artigo submetido originalmente não tinha amostras de controle para evidenciar que a coloração destacava seletivamente o editor genético. Posteriormente, a equipe adicionou amostras de controle a pedido dos revisores. Porém, os controles parecem ter sido processados em momento diferente das amostras tratadas, usando configurações de microscópio distintos, o que torna a comparação difícil. Os experimentos originais com camundongos, também financiados pela família, parecem ter sido refeitos na versão final do artigo.
Embora uma versão preliminar do artigo se referisse à genética da família e reconhecesse o apoio financeiro dos pais à pesquisa, essas informações foram retiradas da versão final.
O artigo não menciona os problemas hepáticos e renais do estudo de segurança em primatas. O artigo também não menciona o ensaio clínico ou a morte de Mei.
Quando o trabalho foi publicado, em fevereiro de 2026, houve uma reação entusiástica da mídia e da comunidade científica. “Esses resultados promissores podem abrir caminho para o desenvolvimento de um tratamento clínico eficaz” – escreveu o pesquisador Kevin Bender em um comentário na Nature. Porém, naquela época, ninguém sabia que a terapia já havia sido testada em uma criança e que a mesma havia falecido.
No artigo final, os autores declararam não possuir conflitos de interesse. Porém, o pesquisador principal é coinventor de patente e fundador da empresa Lanqi Xintu Gene Technology, que participava do projeto.
O que foi feito depois
Após a divulgação da morte de Mei na reportagem, a universidade abriu uma investigação, o artigo na Nature adicionou uma nota e o registro no Clinicaltrials foi atualizado.
Mensagens finais
- A divulgação pública dos resultados das pesquisas é essencial para que novas tecnologias possam avançar com segurança.
- Para a ciência, resultados negativos são tão importantes como os positivos e devem ser divulgados.
- Em qualquer pesquisa, todos os eventos adversos devem ser reportados, desde leves ou moderados a graves e fatais. Pacientes e famílias devem estar cientes de todos os riscos envolvidos.
Diferente de uma fatalidade em um ensaio clínico, a morte de Mei mostra o quão arriscado é levar adiante uma terapia antes que tenha sido demonstrada segurança em estudos pré-clínicos. O caso também evidencia a importância de comitês independentes para revisão e avaliação de segurança durante um estudo.
Os dados de toxicidade no estudo em primatas poderiam ter motivado estudos pré-clínicos adicionais com doses mais baixas para determinar a dose ideal. A revisão por pares poderia sugerir experimentos adicionais que ajudariam a melhorar a tecnologia, antes de um estudo em seres humanos. Após a publicação dos resultados em camundongos e primatas, a comunidade científica poderia manifestar contribuições importantes. Uma revisão mais aprofundada do protocolo do estudo clínico poderia ter sugerido o uso de imunossupressor mais potente, como ocorre em outras terapias gênicas.
Por isso, toda terapia experimental exige etapas rigorosas de pesquisa, revisão cuidadosa e transparência em cada fase. Isso protege os participantes dos estudos e poderia ter protegido Mei.
Texto: Mylena Almeida | Revisão: Profa. Roberta Stilhano
Referências:
- Bender KJ. Gene editing treats a mouse model of a neurodevelopmental disorder. Nature. 2026 Feb 18;651:590-591. doi:10.1038/d41586-026-00291-8.
- Borrell B. A fatal reaction: a cutting-edge gene-editing trial in China went disastrously wrong. A family wants accountability. Science. 2026 Jul 23.
- NCT06860672. Clinical Trial of the Dual Vector Base Editor for the Treatment of the CHD3-R1025W Mutation.
- Science News Staff. Four takeaways from our investigation into a hidden gene-editing death: girl’s death in China raises questions about the safety and cost of gene therapy, China’s biotech push, and scientific publishing practices. Science. 2026 Jul 23.
- Yang K, Li WK, Geng YX, et al. In vivo base editing of Chd3 rescues behavioural abnormalities in mice. Nature. 2026;651:785-795. doi:10.1038/s41586-026-10113-6.

